No quarto dia da Bienal Online você pode ler o prólogo e primeiro capítulo do livro "Andanças", de Carissa Vieira.
Prólogo
Ser imortal é um fardo bem mais pesado do que se pode imaginar. Os dias vêm e vão, os anos passam, as pessoas que você conhece são levadas embora, porque o destino de todo ser humano é morrer. A grande ironia é que a morte é um dos maiores temores de qualquer humano. Muitos seriam capazes de vender sua alma para obter a suposta dádiva da imortalidade. Não escolhi me tornar o que sou, e se soubesse que a eternidade pode ser solitária e vazia, viver como um vampiro não seria uma decisão que tomaria. Não é bonito, muito menos feliz. É uma vida de escravidão que rouba tudo o que é bom e real. Você aos poucos se transforma em uma máquina de destruição, enchendo de tristeza e dor qualquer lugar que entre.
É mais fácil deixar que o monstro sedento por sangue passe a guiar todos os seus passos. Sufocar sua própria dor e desilusão com a vida e permitir que a raiva aflore e tome conta. Deixar que a energia vital presente em um corpo vivo transborde para dentro de você, enquanto o sangue quente desce garganta abaixo e a morte abraça o que há pouco era vivo.
Eu me vi assim, deixando que os traços de humanidade um dia tão característicos, fossem enterrados em algum lugar profundo e obscurecido. E as trevas gradualmente se instalassem em mim. Vi a dor e a morte nos olhos de inocentes; assisti ao caos e à destruição e me deliciei com isso.
É claro que uma pequena fração da minha consciência às vezes me lembrava que um dia havia sido tão frágil quanto qualquer humano, mas é da natureza de um vampiro ignorar qualquer traço de humanidade. Eu, com certeza, fiz questão de deixar qualquer pedaço de uma anterior mortalidade de lado. Quis me transformar em um ser oco, repleto de maldade, luxúria, ambição e morte. E a outros infligi o mesmo destino cruel que impuseram a mim.
Hoje, quando relembro todas as fases da minha vida, o que passei e fiz para me transformar no vampiro que sou agora, não sinto orgulho. Nem poderia. Sei que andei por caminhos tortuosos, cruéis e sem sentido algum; mas que foram necessários para que pudesse descobrir que existe mais na vida, até para alguém como eu. O mal ainda está em mim, sempre estará, mas hoje eu o controlo, não o contrário.


