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31 agosto 2013

Bienal Online + Trecho de livro 3

No dia de hoje o trecho que você irá ler é de "Herdeiro da névoa", livro escrito por Raquel Pagno.

Lembrando que às 20h tem o bate papo com ela. Acesse a Bienal Online pelo facebook e participe.





Prefácio

 Por quem você venderia a sua alma?
Tal indagação me soaria estranha até há pouco tempo.
 Eu certamente julgaria a resposta óbvia demais: filhos, amores, pais... uma leva de entes queridos por quem o faríamos facilmente. Jamais pensei que a escolha pudesse ser feita para salvar a vida de um inimigo...
Muitos anos se passaram. Estou sentado na cadeira dura do meu escritório, num luxuoso hotel no centro de Paris, diante da minha velha máquina de escrever. ‘François Roux – Advogado’ é o dizer entalhado na antiga placa de madeira, por mim pendurada cuidadosamente diante da porta da suíte. Ainda sinto orgulho deste nome e deste título, embora há muito tempo não receba nenhum cliente nem tenha mais energia ou vontade para atender algum.
Observo as gotas de chuva que escorrem pela vidraça em minha frente, lentas, juntando-se umas às outras. Penso que as palavras sairão de minha mente como essas gotas de chuva, com tamanha profundidade e ao mesmo tempo com uma transparência suficientemente cristalina, tal que se possa ver através delas.
Aperto os olhos, tentando vencer as sombras da tempestade que se derrama sobre a cidade. Lá embaixo, um vulto se move, correndo pela rua alagada em direção ao meu prédio. Levanto-me rápido, precisamente a tempo de definir a silhueta da mulher sob o guarda-chuva; o mesmo belo demônio que me enfeitiçou.
Quando retorno ao meu assento, a fim de concluir a missão de escrever minha história, ela já está tão próxima que posso ouvir seus passos através da porta fechada da suíte transformada em meu escritório particular. O toc toc dos saltos pontiagudos sobem impacientes pela escadaria.
De certa forma, creio que o habitual não uso do elevador seja uma forma implícita que ela arranjou para me anunciar sua chegada. Como se eu não a sentisse, como se não fôssemos parte de um mesmo todo, um único ser dividido em duas partes.
Não quero abrir a porta. Ela me confunde, rouba-me a inspiração. Tenho de me concentrar nas letras, nas teclas a minha frente. Não vou levantar-me e deixá-la entrar outra vez em minha casa para roubar-me as forças e as esperanças, impedir-me de contar a verdade.
Recolho-me em toda a insignificância de uma criatura que desafia seu criador. Recolho-me em meu silêncio e ignoro os nós dos seus dedos que batem insistentemente à porta. Percebo, pelo tom das batidas, que ela está ansiosa. Sua mão está trêmula e insegura.
Talvez a verdade que decidi expor seja também a verdade dela, não tenho certeza. Seus passos estão se distanciando da porta, voltando pelas mesmas escadas que a trouxeram para cá, para mim.
Se ela não o quisesse, jamais me permitiria tamanha liberdade. Se não desejasse ardentemente que sua história fosse contada, apenas me impediria. Ela sempre consegue fazer de mim o que quer.