Em primeira mão você vai conhecer um pouco do primeiro capítulo desta linda história.
Capítulo 1
A primeira vez que vi a morte de perto eu tinha 14 anos. Havia implorado por horas até conseguir convencer minha mãe a me levar ao velório da avó de sua melhor amiga. Nunca me esqueci da vontade bizarra que tive ao ver o corpo inerte dentro do caixão. Eu quis sacudir os ombros da idosa e ordenar que ela levantasse de lá. Quando comentei sobre meus pensamentos, minha mãe disse que aquele era o motivo pelo qual ela relutara em concordar que eu fosse ao cemitério: eu não sabia lidar com a morte.
Mal suspeitei que enfrentaria aquela mesma situação, em tão pouco tempo, com as duas pessoas que mais amei no mundo.
Num dia, eu completava 20 anos. No outro, recebia a notícia de que um ônibus desgovernado havia atropelado meu pai, levando sua vida. A ironia das ironias. Nós, minha mãe e eu, sempre tememos que ele sofresse um acidente com o táxi que dirigiu por duas décadas e meia. Jamais imaginaríamos que sua morte pudesse ser causada durante uma caminhada inofensiva pelas ruas da cidade. Passei o velório com uma sensação sufocante de irrealidade. À espera do minuto perfeito em que eu sacudiria meu pai, ele sentaria, olharia à sua volta, me encontraria ao lado do caixão, daria o sorriso terno, que espelhava em seus olhos o mais puro amor, e diria, mais uma vez: “Filha, esse cabelo caindo nos olhos ainda vai prejudicar sua visão”. Nada daquilo se transformou em realidade. Mas minha mãe me contou depois, em seu jeito impaciente de lidar com situações que não envolvam compras, que eu quis impedir o coveiro de jogar terra no túmulo. Segundo ela, eu gritei que meu pai não teria força para abrir o caixão, quando acordasse, com tanta terra em cima. Não me lembro dessa parte. O remédio de tarja preta dupla, que me deram logo após a notícia da morte, deve ter aflorado o lado selvagem de minha personalidade que luto para manter sob controle.
E, aqui estou eu, cinco anos depois, cravando as unhas nas palmas das mãos num gesto desesperado para me impedir de arrancar vó Helena do caixão à minha frente, apertar seus ombros, sacudindo-os até fazê-la abrir os olhos e me acordar do pesadelo que destroça minha alma. Desta vez, eu não concordara em tomar qualquer tipo de calmante. Nada de tarjas pretas, vermelhas ou brancas. Eu passaria por tudo aquilo o mais lúcida que pudesse. Queria me despedir inteira de minha avó materna. Fomos tão unidas que minha mãe costumava falar que se não tivesse sentido meus chutes na barriga e não tivesse visto o médico me tirar de dentro dela, juraria que sua mãe era um daqueles casos raros da medicina que tinha filho com quase 60 anos. Exageros à parte, eu sabia que dona Haidê guardava certo ressentimento por eu ter criado um laço de afeto mais estreito com minha avó do que com ela, minha própria mãe.
Tiro meus olhos do semblante passivo de vó Helena e os corro pela pequena sala onde o velório é realizado. O local está cheio. Não consigo evitar o sorriso. Minha avó foi uma pessoa muito querida. Teve três filhos, cinco netos, uma bisneta e dezenas de amigos. Dona da personalidade mais doce e generosa que conheci, sua vida foi totalmente dedicada a ajudar as pessoas. Virou uma espécie de Madre Tereza da periferia. Onde houvesse alguém necessitando de cuidados especiais, lá estava dona Helena. Perdi as contas das vezes em que disse a ela que pensasse um pouco mais em si mesma e parasse de querer salvar o mundo. Ela respondia que não pretendia salvar o
mundo, apenas deixar um cantinho dele mais digno de ser vivido. O hábito de separar uma parte de meu salário e pesquisar instituições ou projetos sociais que necessitavam de investimento, todo mês, aprendi com ela, que repetia sempre para mim: “O maior tesouro de uma pessoa é seu amor pelo próximo”.
