08 maio 2014

Não ria da queda alheia!

Se conselho fosse bom, não se dava, vendia-se. Pois bem, estou indo contra o ditado e dando-lhe este de presente; aceite-o, caro leitor: jamais ria de alguém. Sério! Vamos ao caso:
Dia desses fui ao teatro a convite de um grande amigo. Não para ver uma peça, mas para um show de música. E que espetáculo! Cada música mais tocante do que a outra e as luzes do palco encaixavam-se harmoniosamente com os arranjos musicais. A atuação de todos da banda foi perfeita, porém o ponto alto mesmo da noite – neste caso, “baixo” – foi a performance da cantora, que corria de um lado para outro, deslizando sobre o piso de madeira do Carlos Gomes, encantando com sua voz estrondosa e movimentos dançantes.
Foi então, exatamente como previ, que aconteceu. Não demorou muito tempo, em um dos seus desfiles teatrais, as pernas se embananaram e fizeram com que a bela cantora caísse feito jaca podre. Foi um tombo épico, digno de nota máxima em qualquer atuação em teste teatral. A música ainda estava no começo, o que fez com que a cena fosse base para a expressão “ressurgiu das cinzas como uma fênix”. Agachada como estava, Maria Fernanda deu show: chamou sua voz do mais íntimo do ser e cantou como não havia até então.
Meu amigo do cabelo vermelho não conseguira acreditar que o tombo não fizesse parte do show. Como a cantora disse que faria uma homenagem à cantora que a havia inspirado a seguir esta profissão, ele imaginou que a queda fizesse fielmente parte da apresentação. Minhas gargalhadas foram forçadas a ficarem presas na garganta, pois não havia muitos espectadores e o eco do riso seria ouvido até pelo baterista.
Saindo de lá, andamos pelas ruas vazias do centro histórico de Vitória. Disse adeus para meu amigo, que voltaria para sua cidade, e continuei no ônibus. Entraram sujeitos estranhos, como já é de se esperar àquela hora da noite, mas saltei pontos depois tranquilamente. O sossego, entretanto, não durou muito. Um rapaz pedalando uma bicicleta fez a gentileza de me dar um grande susto e eu travei, pensando que seria assaltada. Tentei disfarçar meu medo acelerando o passo, tentando não correr desesperadamente, até alcançar um casal à minha frente. Aproveitei o embalo da corrida e só parei quando cheguei a uma escada com pouquíssimos degraus para subir à rua da frente da minha casa. E é aqui, exatamente aqui, caro leitor, que Deus nos castiga. Sozinha, sem ajuda de vento, pessoa ou qualquer outra circunstância a não ser o bom humor do universo, a gravidade me chamou para si. Levei o maior tombo da história dos tropeções, ao lado do casal e do assaltante em potencial.
Não tive coragem de olhar pra cima. Minha humilhação era tão grande que, se o ladrão antes queria mesmo me assaltar, agora não o fizera por pena. A bolsa era a única dignidade a qual eu poderia me agarrar naquele momento e sou muito grata ao ladrão por ter entendido e ter tido o mínimo de humanidade – mas me ajudar a levantar do chão que era bom, nada.
Andressa Andrade
Publicado pela primeira vez no site do Universo Ufes

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