07 fevereiro 2014

Deguste um livro: A missão de Anabel

Na coluna de hoje da Bienal Online você vai conhecer a autora Shirlei Ramos estreando no mundo literário com seu romance A missão de Anabel. Disponível gratuitamente na lojinha da Amazon por tempo limitado.

Em primeira mão você vai conhecer um pouco do primeiro capítulo desta linda história.



Capítulo 1

A primeira vez que vi a morte de perto eu tinha 14 anos. Havia implorado por horas até conseguir convencer minha mãe a me levar ao velório da avó de sua melhor amiga. Nunca me esqueci da vontade bizarra que tive ao ver o corpo inerte dentro do caixão. Eu quis sacudir os ombros da idosa e ordenar que ela levantasse de lá. Quando comentei sobre meus pensamentos, minha mãe disse que aquele era o motivo pelo qual ela relutara em concordar que eu fosse ao cemitério: eu não sabia lidar com a morte.
Mal suspeitei que enfrentaria aquela mesma situação, em tão pouco tempo, com as duas pessoas que mais amei no mundo.

Num dia, eu completava 20 anos. No outro, recebia a notícia de que um ônibus desgovernado havia atropelado meu pai, levando sua vida. A ironia das ironias. Nós, minha mãe e eu, sempre tememos que ele sofresse um acidente com o táxi que dirigiu por duas décadas e meia. Jamais imaginaríamos que sua morte pudesse ser causada durante uma caminhada inofensiva pelas ruas da cidade. Passei o velório com uma sensação sufocante de irrealidade. À espera do minuto perfeito em que eu sacudiria meu pai, ele sentaria, olharia à sua volta, me encontraria ao lado do caixão, daria o sorriso terno, que espelhava em seus olhos o mais puro amor, e diria, mais uma vez: “Filha, esse cabelo caindo nos olhos ainda vai prejudicar sua visão”. Nada daquilo se transformou em realidade. Mas minha mãe me contou depois, em seu jeito impaciente de lidar com situações que não envolvam compras, que eu quis impedir o coveiro de jogar terra no túmulo. Segundo ela, eu gritei que meu pai não teria força para abrir o caixão, quando acordasse, com tanta terra em cima. Não me lembro dessa parte. O remédio de tarja preta dupla, que me deram logo após a notícia da morte, deve ter aflorado o lado selvagem de minha personalidade que luto para manter sob controle.

E, aqui estou eu, cinco anos depois, cravando as unhas nas palmas das mãos num gesto desesperado para me impedir de arrancar vó Helena do caixão à minha frente, apertar seus ombros, sacudindo-os até fazê-la abrir os olhos e me acordar do pesadelo que destroça minha alma. Desta vez, eu não concordara em tomar qualquer tipo de calmante. Nada de tarjas pretas, vermelhas ou brancas. Eu passaria por tudo aquilo o mais lúcida que pudesse. Queria me despedir inteira de minha avó materna. Fomos tão unidas que minha mãe costumava falar que se não tivesse sentido meus chutes na barriga e não tivesse visto o médico me tirar de dentro dela, juraria que sua mãe era um daqueles casos raros da medicina que tinha filho com quase 60 anos. Exageros à parte, eu sabia que dona Haidê guardava certo ressentimento por eu ter criado um laço de afeto mais estreito com minha avó do que com ela, minha própria mãe.

Tiro meus olhos do semblante passivo de vó Helena e os corro pela pequena sala onde o velório é realizado. O local está cheio. Não consigo evitar o sorriso. Minha avó foi uma pessoa muito querida. Teve três filhos, cinco netos, uma bisneta e dezenas de amigos. Dona da personalidade mais doce e generosa que conheci, sua vida foi totalmente dedicada a ajudar as pessoas. Virou uma espécie de Madre Tereza da periferia. Onde houvesse alguém necessitando de cuidados especiais, lá estava dona Helena. Perdi as contas das vezes em que disse a ela que pensasse um pouco mais em si mesma e parasse de querer salvar o mundo. Ela respondia que não pretendia salvar o
mundo, apenas deixar um cantinho dele mais digno de ser vivido. O hábito de separar uma parte de meu salário e pesquisar instituições ou projetos sociais que necessitavam de investimento, todo mês, aprendi com ela, que repetia sempre para mim: “O maior tesouro de uma pessoa é seu amor pelo próximo”.







Percebo a aproximação de minha mãe. Ela se posta atrás de mim e sussurra próximo de meu ouvido esquerdo:

— Não dê vexame hoje, Anabel. Passei o maior constrangimento da minha vida no enterro do seu pai. Até hoje minhas amigas comentam sobre aquele escândalo.

Fecho os olhos, cerro os punhos. Aquela era minha mãe sem cortes, sem censura. Eu tinha o dom de trazer à tona o pior lado de sua personalidade. Um que não se importava em fazer comentários egoístas mesmo diante da própria mãe morta.

Viro o rosto ligeiramente e respondo antes que ela volte a falar, mais alto, para todos ouvirem:

— Não vou dar escândalo, mãe. Eu vi o quanto minha avó sofreu nos últimos meses. Por mais que eu esteja sofrendo, aceitei a morte dela. Sei que ela está descansando onde estiver.

Minha mãe parece engolir minhas palavras, pois se afasta e vai conversar com tia Amora. Conscientemente, o que eu disse faz todo sentido do mundo para mim. Vó Helena sofreu por muitos meses antes de morrer no hospital ontem. O câncer, que começou em seu estômago, espalhou-se por todo o corpo sem que nenhum tipo de tratamento pudesse curá-la. E tentamos de tudo: medicina tradicional, holística, espírita. Teríamos colocado galinha preta na encruzilhada se isso prometesse o livramento da maldita doença. O melhor tratamento que ela conseguiu, no fim, foi a morte. Mas meu coração reluta em aceitar esta realidade. É difícil encarar a perda da única pessoa que tinha o poder de enxergar meu verdadeiro eu e me amar apesar disso.

Um movimento na porta chama minha atenção. É minha amiga, Júlia, que acaba de chegar. Cruzo a sala e me jogo nos braços dela. Depois de vó Helena, ela é a pessoa mais próxima de mim. Nossa amizade começou no jardim da infância, na época em que trocávamos nossos brinquedos e desenhos de nós duas lado a lado.

— Eu sinto muito, Bel. Eu sei o quanto você a amava. — Júlia me abraça mais forte.

— E vou amar para sempre. Obrigada por vir, amiga. — A garganta desaloja as lágrimas que deslizam através de meu rosto.

Permanecemos abraçadas, eu chorando e Júlia acarinhando minhas costas, por tanto tempo que tenho um leve estremecimento quando o pastor da igreja de tia Amora anuncia a oração antes do sepultamento para dali meia hora. Separamo-nos. Seco os olhos com as costas das mãos. Júlia volta a falar:

— Cadê o João? Foi embora?

João é meu namorado. No mês passado, completamos cinco anos de namoro. Se é que a relação estranha que mantemos pode ser chamada assim. E uma prova disso está bem aqui, na resposta que darei à minha amiga:

— Ele não veio e nem vai vir. Ele detesta enterros.

— Mas não é qualquer enterro, minha nossa! É o enterro da avó da namorada dele. Ele deveria te dar apoio, os dois ombros, as duas mãos, se você precisasse. Que tipo de namorado é esse que deixa a namorada sozinha enfrentando uma barra dessas?!
Júlia não aceitaria calada minha explicação conciliatória, claro. Há séculos ela implica com João. A verdade é que ela nunca foi com a cara dele. Coloca defeito em tudo: a falta de estilo ao se vestir, a tendência que ele tem de viver no mundo da lua, a calvície precoce e, até mesmo, seus 1,62m.

— Eu não me importo, Júlia. Mesmo. Estou acostumada com o jeito do João. Ele ficou de passar em casa mais tarde, um pouco antes de ir dar as aulas à noite. Daí, ele pode me oferecer os ombros, as mãos e até os pés, como você deseja. — Sorrio, tentando fazer piada. A última coisa que quero é dona Júlia dando um “piti” no velório de minha avó.

— Sei... como eu queria entender sua cabeça, Bel. Ficar com um cara tão idiota quanto esse por tantos anos. Me desculpe a franqueza, mas não tenho outra palavra para qualificar o sujeito. – Vira-se para onde está o caixão e muda abruptamente seu tom. — Vou me despedir de dona Helena. Vou sentir tanta saudade dela! Ninguém jamais fará um bolinho de chuva como ela.
Sai de perto de mim, andando em direção ao local onde jaz o caixão em cima dos pedestais. Para no lado direito de minha avó, com os olhos verdes pesarosos. E eu fico ali, evitando a todo custo pensar na minha (pseudo) vida amorosa. Porém, com as porteiras de meu cérebro abertas pela tristeza, os pensamentos vêm aos solavancos. Cada um exigindo que eu o pegue e dê atenção antes de ser jogado, novamente, para o fundo da mente.

Sento numa cadeira ao lado da porta. Encosto a cabeça na parede. Fecho os olhos. E deixo a ebulição interior me dominar.

Conheci João no terceiro ano da faculdade. Eu cursava Letras. Ele, o último ano de História. Nosso encontro aconteceu no curso extracurricular que fazíamos: literatura russa. Meu interesse em literatura nunca se resumiu apenas às brasileiras e portuguesas, apesar de eu ter optado pela habilitação em Português no segundo ano. Eu queria conhecer um pouco de cada literatura, ter ideia de como pensavam e se expressavam os povos de diferentes países. Por isso, me matriculei naquele curso. Havia feito literatura francesa, como ouvinte, no semestre anterior. E pretendia ainda, no próximo semestre, cursar literatura italiana. Mas João entrou naquele curso por causa de sua obsessão. A Rússia. Toda disciplina que envolvia o adjetivo “russo” o atraia. E literatura russa, naquele ano, era aberta a estudantes de outros departamentos da universidade.

A primeira vez que notei João ele pedia desculpas por ter tropeçado em meu pé e ter quase caído por cima de minha cadeira. Achei fofo o jeito desastrado e disse que tinha um lugar vago ao meu lado, quando o vi esquadrinhando a sala à procura de uma cadeira para sentar. Ele agradeceu, sentou, abriu o fichário, que trazia embaixo do braço, e passou a conferir as anotações. Eu fingi que ele não estava concentrado e puxei conversa. Perguntei qual habilitação de Letras ele fazia. Ele respondeu, sem tirar os olhos do papel, que fazia História. Eu, então, me apresentei. Ele ficou mudo por uns
dois minutos, o tempo que levou para perceber que eu estava afim de bater papo. Olhou para mim, mas não parecia me enxergar. Respondeu que se chamava João e perguntou se minha habilitação era em Língua Russa. Quando eu respondi que não, voltou a seus papéis. Aquilo despertou uma rebeldia dentro de mim que me impulsionou a falar sem parar. Despejei perguntas: que faria com o curso de História? Pretendia ser professor ou pesquisador? O curso não era maçante? O que tinha despertado seu interesse para seguir aquela carreira? Minha tagarelice o tirou do transe e, finalmente, ele reparou em mim. Deu um sorriso tímido e respondeu às minhas perguntas, pacientemente. Disse que seria um dos maiores pesquisadores de História Russa. Que faria mestrado, doutorado, pós-doutorado na área. Um dia estudaria na própria Rússia e ninguém saberia mais do que ele no Brasil. E que seu amor pela História começou quando estava no Ensino Fundamental e estudara sobre a Revolução Russa. Tudo se resumia à Rússia, no final das contas. Achei uma chatice só, mas adorei seu sorriso e seu tom educado. Viramos amigos naquele dia. Descobrimos ao longo das semanas que tomávamos o mesmo ônibus para ir embora. Sua companhia era agradável, apesar da obsessão pela Rússia. Não que eu não gostasse da Rússia. Ao contrário, adorava o som do cirílico e Maiakovski. Mas a paixão de João ultrapassava a de uma mente sadia.

Nosso primeiro beijo demorou seis meses para acontecer desde que João tropeçou em mim. Na verdade, eu o beijei. Havia passado duas horas e meia de pura ansiedade e nervosismo, dentro do cinema, à espera de uma tentativa desajeitada de pegar uma de minhas mãos ou, talvez, um abraço de pura distração provocada. Que nada! João passou todo o filme concentrado na tela interessado apenas em Leningrado com Mira Sorvino. Saímos da sala de exibição, e ele tagarelava sem parar sobre “aquela parte tão importante da história russa”. Eu ouvi, ou melhor, fingi ouvir até chegarmos ao final do corredor que dava para um amplo espaço onde outras salas ficavam lado a lado. Fiz João parar ao lado de uma imensa coluna de metal e não me fiz de rogada: calei a boca dele com um beijo. Para que ele não tivesse a mínima chance de reação, introduzi a língua. Era a primeira vez em minha vida que era tão ousada com um homem. Já tive outros namorados antes de João. Tive dois. Pedro e Paulo. Parecia que eu tinha uma tendência estranha de atrair homens com nomes bíblicos. Porém, foram os dois que tomaram a iniciativa. Pedro, com meus 14 anos. Paulo, 17.

Pelo menos, não paguei um mico completo. João correspondeu. Não foi o melhor beijo da minha vida. Na real, foi meio estranho, pois tive a impressão de que ele não havia praticado muito antes de mim. Mas foi o início. Sem nunca existir uma menção sobre estarmos namorando, começamos a trocar beijos entre discussões sobre cultura, política e história russa. João nunca foi de perguntar sobre minhas preferências ou minha rotina. Apreciava despejar sua vida sobre mim e recuar ao receber a minha de volta. Eu acreditava, no entanto, que tínhamos um relacionamento legal, sem brigas ou discussões. Nada que alguma vez tivesse tirado meus pés do chão ou feito meu coração quase saltar para fora do peito. E até certo ponto eu gostava disso, pois fazia com que meu lado impetuoso fosse refreado.



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