02 setembro 2013

Bienal Online + Trecho de livro 4

No quarto dia da Bienal Online você pode ler o prólogo e primeiro capítulo do livro "Andanças", de Carissa Vieira.



Prólogo


Ser imortal é um fardo bem mais pesado do que se pode imaginar. Os dias vêm e vão, os anos passam, as pessoas que você conhece são levadas embora, porque o destino de todo ser humano é morrer. A grande ironia é que a morte é um dos maiores temores de qualquer humano. Muitos seriam capazes de vender sua alma para obter a suposta dádiva da imortalidade. Não escolhi me tornar o que sou, e se soubesse que a eternidade pode ser solitária e vazia, viver como um vampiro não seria uma decisão que tomaria. Não é bonito, muito menos feliz. É uma vida de escravidão que rouba tudo o que é bom e real. Você aos poucos se transforma em uma máquina de destruição, enchendo de tristeza e dor qualquer lugar que entre.
É mais fácil deixar que o monstro sedento por sangue passe a guiar todos os seus passos. Sufocar sua própria dor e desilusão com a vida e permitir que a raiva aflore e tome conta. Deixar que a energia vital presente em um corpo vivo transborde para dentro de você, enquanto o sangue quente desce garganta abaixo e a morte abraça o que há pouco era vivo.
Eu me vi assim, deixando que os traços de humanidade um dia tão característicos, fossem enterrados em algum lugar profundo e obscurecido. E as trevas gradualmente se instalassem em mim. Vi a dor e a morte nos olhos de inocentes; assisti ao caos e à destruição e me deliciei com isso.
É claro que uma pequena fração da minha consciência às vezes me lembrava que um dia havia sido tão frágil quanto qualquer humano, mas é da natureza de um vampiro ignorar qualquer traço de humanidade. Eu, com certeza, fiz questão de deixar qualquer pedaço de uma anterior mortalidade de lado. Quis me transformar em um ser oco, repleto de maldade, luxúria, ambição e morte. E a outros infligi o mesmo destino cruel que impuseram a mim.
Hoje, quando relembro todas as fases da minha vida, o que passei e fiz para me transformar no vampiro que sou agora, não sinto orgulho. Nem poderia. Sei que andei por caminhos tortuosos, cruéis e sem sentido algum; mas que foram necessários para que pudesse descobrir que existe mais na vida, até para alguém como eu. O mal ainda está em mim, sempre estará, mas hoje eu o controlo, não o contrário.



Capítulo 1


Era o ano de 1901. A expectativa de todos os cidadãos de Londres era enorme. Não somente por causa da mudança de século, acontecimento ainda recente, mas por causa do novo reinado. O Rei Eduardo VII havia sido coroado há apenas dois meses e todos na cidade ainda falavam do jovem filho da Rainha Victoria e se ele seguiria a linha de reinado da mãe.
Eu, nessa época, era apenas um jovem rapaz de 22 anos; talvez um pouco imaturo pela idade e pela maneira como fui criado. Filho mais novo de cinco irmãos, entre eles, três mulheres. Havia sido mimado e paparicado durante toda a vida. Voltava para casa, depois de ter ido a um baile extremamente cansativo, apenas porque Joana, uma de minhas irmãs, me fizera acompanhá-la. Não era um adepto desse tipo de festividade, mas cumpria com minhas obrigações. Como não estava me divertindo, resolvi caminhar até minha casa, deixando a carruagem para que quando minha adorada irmã quisesse retornar ao nosso lar, pudesse fazê-lo sem problemas. Ela teria companhia de alguma de suas amigas, sem dúvida.
Enquanto andava poucas pessoas avistei, e, em um trecho trecho, a rua estava absolutamente deserta. Mal sabia eu que meu destino mudaria nesta noite, apenas porque acreditei que era seguro voltar para casa a pé. A imaturidade dos jovens, que acreditam que nada poderá lhes fazer mal. Não sei exatamente como foi que tudo aconteceu, apenas senti os dentes cravando fundo no meu pescoço. Tentei lutar, empregando toda a força que tinha, mas não existia chance para mim. Lentamente vi tudo escurecer e perdi os sentidos.
***
Acordei jogado em uma cama de um belo quarto, que sabia não ser o meu. Olhei para os lados procurando alguém dentro daquele lugar estranho, mas estava sozinho. Sentia que alguma coisa esquisita estava acontecendo, mas não conseguia recordar como chegara naquela casa, ou porque estava ali; apenas tinha uma vaga lembrança de ser atacado durante a noite, mas depois disso, tudo era apenas um grande borrão.
Estava inquieto, pois havia tido um sonho estranho. Nele sentia a morte me abraçar de uma maneira muito real; mas logo após eu revivia e apenas sentia sede e um vazio que parecia reinar sobre mim. Apressadamente levantei e caminhei até a janela do quarto, olhando para a noite escura, pronto para tentar descobrir onde estava. Não queria ficar pensando naquele pesadelo terrível e tinha que descobrir onde estava.
- Calma – ouvi uma voz suave e até tranquilizadora falar comigo. Ao me virar dei de cara com a mulher mais linda que já havia visto. Ela estava parada na porta do quarto, olhando para mim.
Com lindos olhos verdes que pareciam enxergar a minha alma, cabelos muito pretos e ondulados e uma pele de porcelana muito branca que parecia que quebraria a qualquer momento. Ela era de uma beleza assombrosa, tão maravilhosa que me perguntava se ela era real. Dela emanava um poder inexplicável que me paralisou completamente.
- Calma – ela tornou a repetir. – Fique calmo. Seus pensamentos estão uma bagunça.
- Onde estou?
- Em um lugar seguro, fique tranquilo – ela se aproximou e me observou de perto por alguns segundos, sustentando o olhar por mais tempo do que seria aceitável para uma dama. – Você deve estar com sede.
No momento que ela falou, minha garganta queimou como se houvesse fogo descendo por ela. Coloquei uma mão sobre o pescoço e ela sorriu.
- É... eu sei. Logo isso fica mais suportável.
Eu a olhava incrédulo. Não entendia porque ela falava como se aquela sensação fosse completamente natural.
- Você vai entender, apenas fique calmo.
Sem explicar mais nada ela me passou uma taça com um líquido vermelho parecendo sangue, o que me deixou enojado; mas quando o cheiro atingiu minhas narinas toda a minha aversão foi embora. Bebi todo o conteúdo de uma vez, sorvendo cada gota do precioso líquido. Ao terminar, senti meu corpo energizado, cheio de vida. Desejava mais, muito mais daquela deliciosa bebida. Era quase como uma necessidade. Olhei para ela desejoso, implorando por uma gota que fosse, mas recebi apenas um sorriso complacente.
- Agora não. Depois.
- Mas...
- Você vai ter que aprender a se controlar, senão vamos ter problemas.
“Controlar o quê?”, pensei. E a olhei confuso.
- Você ainda não entende o que aconteceu, eu sei – ela sorriu e me fez sentar novamente na cama, como se eu fosse uma criança desamparada. – Mas para entender, precisa se acalmar e apenas me ouvir.
Eu concordei quase que imperceptivelmente.
- Ontem você mudou. De um jeito que vai alterar tudo na sua vida.
- Não estou entendendo, e...
- Apenas me escute – ela respirou fundo e recomeçou a falar. – Você sabe o que acabou de beber? É sangue.
- Eu cheguei a pensar que era, mas...
Ela me calou com um olhar e continuou:
- Você deixou de ser humano e para continuar vivendo precisará tomar sangue. Durante um tempo precisará ficar longe dos humanos, ou vai acabar destruindo tudo ao seu redor.
- Mas isso não faz sentido. Eu... – de repente parei de falar. Percebi que o sonho que me aterrorizava quando acordei não era nada mais que a realidade. Todas as coisas horríveis que eu estava tentando esquecer haviam acontecido comigo. A dor penetrando meu corpo, a sensação de morte. Tudo! – Quer dizer que não era um sonho?
- Não.
- Eu estou morto?
- De certa forma – ela me olhou, como se estivesse vendo um bebê. - Seu corpo humano morreu, seu coração parou... Pense que sua humanidade foi embora e um mundo novo se abriu para você. Um mundo cheio de possibilidades.
As palavras foram entrando nos meus ouvidos e eu não podia acreditar. Imaginava que em algum momento iria acordar daquilo tudo. Anos atrás eu ouvira falar da lenda dos sugadores, mas para mim não passava disso: uma lenda.
- Quer dizer que a lenda dos sugadores de sangue...?
- Não é uma lenda – ela me interrompeu. – Nós somos muito reais.
- Qual é o seu nome? – eu perguntei, precisando saber mais sobre a mulher que estava dizendo que minha vida acabara.
- Eliza.
- Sou Charles. – eu respondi, mesmo sem ela ter perguntado. – Foi você que me transformou em... nesta coisa que agora sou?
- Se você não parar de sentir repugnância do que você é não vai conseguir seguir em frente. E sim, fui eu.
- Por quê?
- Por que te transformei? Porque não queria te deixar morrer.
- Se não queria me deixar morrer, por que me atacou?
- Porque estava com fome. Não me alimentava fazia um bom tempo e você apareceu sozinho, desprotegido. Infelizmente você estava no lugar errado, na hora errada.



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